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terça-feira, 20 de março de 2012






Lábios 
que encontram outros lábios 
num meio de caminho, como peregrinos 
interrompendo a devoção, nem pobres 
nem sábios numa embriaguez sem vinho: 

que silêncio os entontece quando 
de súbito se tocam e, cegos ainda, 
procuram a saída que o olhar esquece 
num murmúrio de vagos segredos? 
.
É de tarde, na melancolia turva 
.



quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

:(



Como se o teu amor tivesse outro nome no teu nome,
chamo por ti; e o som do que digo é o amor
que ao teu corpo substitui a doçura de um pronome
- tu, a sílaba única de uma eclosão de flor.

Diz-me, então, por que vens ter comigo
no puro despertar da minha solidão?
E que murmúrio lento de uma cantiga de amigo
nos repete o amor numa insistência de refrão?

É como se nada tivesse para te dizer
quando tu és tudo o que me habita os lábios:
linguagem breve de gestos sábios
que os teus olhos me dão para beber.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

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É nos teus olhos que o mundo inteiro cabe, mesmo quando as suas voltas me levam para longe de ti, e se outras voltas me fazem ver nos teus os meus olhos, não é porque o mundo parou, mas porque esse breve olhar nos fez imaginar que só nós é que o fazemos andar.





quarta-feira, 7 de setembro de 2011

♥



Quero escrever-te um poema que tenha um sentido claro como o que os teus olhos me disseram. Poderia ser um poema de amor, tão breve como o instante em que me deixaste ver os teus olhos. Mas o que os olhos dizem não cabe num poema, nem eu sei como se diz o amor que só os olhos conhecem.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

PODEMOS FALAR...




Podemos falar dos sentimentos, descrever
as impressões que nos ameaçam, e revelar o vazio
que se descobre na ausência um do outro: nada,
porém, é tão inquietante como a dúvida,
o não saber de ti, ouvir o desânimo na tua voz,
agora que a tarde começa a descer e, com ela,
todas as sombras da alma. É verdade que o amor não é
apenas um registo de memórias. É no presente
que temos de o encontrar: aí, onde a tua imagem
se tornou mais real do que tu própria,
mesmo que nada te substitua. Então, é
porque as palavras são supérfluas; mas como viver
sem elas? Como encontrar outra forma de te dizer
que o amor é esta coisa tão estranha, dar o que nunca
se poderá ter, e ter o que está condenado
a perder-se ? A não ser que guardemos dentro de nós,
num canto de um e outro a que só nós chegamos,
sabendo que esse pouco que nos pertence é
tudo o que cabe neste sentimento.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

F



Quero dizer-te uma coisa simples: a tua
ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não
magoa, que se limita à alma; mas que não deixa,
por isso, de deixar alguns sinais - um peso
nos olhos, no lugar da tua imagem, e
um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes
tivessem roubado o tacto. São estas as formas
do amor, podia dizer-te; e acrescentar que
as coisas simples também podem ser
complicadas, quando nos damos conta da
diferença entre o sonho e a realidade. Porém,
é o sonho que me traz a tua memória; e a
realidade aproxima-te de ti, agora que
os dias correm mais depressa, e as palavras
ficam presas numa refracção de instantes,
quando a tua voz me chama de dentro de
mim - e me faz responder-te uma coisa simples,
como dizer que a tua ausência me dói.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

moi...



Sonhei contigo embora nenhum sonho

possa ter habitantes tu, a quem chamo

amor, cada ano pudesse trazer

um pouco mais de convicção a

esta palavra. É verdade o sonho

poderá ter feito com que, nesta

rarefacção de ambos, a tua presença se

impusesse - como se cada gesto

do poema te restituisse um corpo

que sinto ao dizer o teu nome,

confundindo os teus

lábios com o rebordo desta chávena

de café já frio. Então, bebo-o

de um trago o mesmo se pode fazer ao amor,

quando entre mim e ti se instalou todo este espaço -

terra, água, nuvens, rios e

o lago obscuro do tempo

que o inverno rouba à transparência

da fontes. É isto, porém, que faz com que

a solidão não seja mais

do que um lugar comum saber

que existes, aí, e estar contigo

mesmo que só o silêncio me

responda quando, uma vez mais

te chamo.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

/



O desencontro das tardes, uma febre
de profecia, a sede de sal dos lábios
sequiosos, a ferida tranquila de um espinho
de rosa, o amor que acontece, as águas da noite
quando os rios se calam, o olhar vigilante
de uma lua sem céu.

Às vezes, ouvia-te no corredor
sem fim, como se os passos da sombra
pudessem ecoar na minha cabeça; e
abria-te a porta, para que uma ausência
branca entrasse no quarto em que te
esperava, para um sempre que nunca foi.

E sentavas-te na cadeira do fundo,
atrás de mim, pedindo-me que te olhasse
no espelho obscuro da memória. Mas
não me voltei, para não ver o lugar vazio
que deixaste na casa solitária do inverno,
sob o véu nupcial que as aranhas teceram.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

n


é nos teus olhos que o mundo inteiro cabe,
mesmo quando as suas voltas me levam para longe de ti;
e se outras voltas me fazem ver nos teus
os meus olhos, não é porque o mundo parou, mas
porque esse breve olhar nos fez imaginar que
só nós é que o fazemos andar.

terça-feira, 22 de setembro de 2009


A incerteza



A incerteza cai com a tarde

no limite da praia. Um pássaro

apanhou-a, como se fosse

um peixe, e sobrevoa as dunas

levando-a no bico. O

seu desenho é nítido, sem

as sombras da dúvida ou

as manchas indecisas da

angústia. Termina com a

interrogação, os traços do fim,

o recorte branco de ondas

na maré baixa. Subo a estrofe

até apanhar esse pássaro

com o verso, prendo-o à frase,

para que as suas asas deixem

de bater e o bico se abra. Então,

a incerteza cai-me na página, e

arrasta-se pelo poema, até

me escorrer pelos dedos para

dentro da própria alma.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

t


Leio o amor no livro
da tua pele; demoro-me em cada
sílaba, no sulco macio
das vogais, num breve obstáculo
de consoantes, em que os meus dedos
penetram, até chegarem
ao fundo dos sentidos. Desfolho
as páginas que o teu desejo me abre,
ouvindo o murmúrio de um roçar
de palavras que se
juntam, como corpos, no abraço
de cada frase. E chego ao fim
para voltar ao princípio, decorando
o que já sei, e é sempre novo
quando o leio na tua pele.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

(¯`*•.¸(¯`*•.¸....¸.•*´¯)¸.•*´¯)



.
Quero-te, como se fosses
a presa indiferente, a mais obscura
das amantes. Quero o teu rosto
de brancos cansaços, as tuas mãos
que hesitam, cada uma das palavras
que sem querer me deste. Quero
que me lembres e esqueças como eu
te lembro e esqueço: num fundo
a preto e branco, despida como
a neve matinal se despe da noite,
fria, luminosa,
voz incerta de rosa.
.